Argumento

Infância e adolescência.

Impasses e saídas

Valéria Ferranti – Coordenadora da Comissão Científica

O tema das nossas Jornadas nos convida, de início, a estabelecer uma precisão acerca dos termos que nele são apresentados. As inúmeras referências de que dispomos na cultura exigem situar a infância e a adolescência de maneira específica em função do discurso do qual resultam como “conceitos” e que, com frequência, aparecem conjugados em um binarismo fixado. Neste sentido, verifica-se que são construções, artifícios significantes, tal como destaca Jacques-Alain Miller em sua conferência “Em direção à adolescência”, que orienta as investigações nas quais nos lançamos neste momento no Campo Freudiano.

A criança entra na psicanálise pela via do sintoma, uma vez que Freud soube dar à fobia de Hans o estatuto de uma elucubração de saber. Lacan, em “Nota sobre a criança”, introduz a perspectiva de o sintoma ser tomado como uma resposta que localiza a criança na estrutura onde se transmite um saber sobre o desejo e o gozo. Ao mesmo tempo, considera o quanto o saber e o enigma que porta o Outro podem ser traumáticos ao deixar o sujeito em um impasse acerca de sua existência.

Se Freud promoveu uma subversão ao colocar a criança como sujeito suposto saber em sua relação com o inconsciente – cabendo aos analistas sustentar esta posição –, Lacan confrontará a perspectiva dos pós-freudianos que se apoiavam naquilo que os estados freudianos da libido permitiam, de certa forma, entrever. Opondo desenvolvimento e estrutura, nos faz ver que são coordenadas lógicas, e não cronológicas, que estão em jogo e estabelecem “rupturas”.

Isto nos permite introduzir o ponto crucial presente no tema das nossas jornadas: como pensar infância e adolescência a partir destas coordenadas lógicas? E como distintos momentos lógicos se articulam?

Desde 1905, com Freud, sabemos que a criança não é um “subdesenvolvido sexual”; ao que Lacan acrescenta: nem primitivo[i]. Há algo de absolutamente original que se passa na infância e será reatualizado na adolescência: as respostas possíveis frente ao furo que a sexualidade faz surgir no Real.

Podemos assim localizar na infância um tempo em que a elucubração de saber busca construir algum sentido para o enigma da sexualidade, ou seja, para o gozo pulsional, aquilo que afeta o corpo e o excede, para além das bordas. Tempo da escolha do sintoma, da produção da fantasia, da posição sexuada.

Da infância à adolescência, uma ruptura se introduz: de um lado a insuficiência das invenções frente à não-relação sexual; de outro, o corpo (re)animado para o encontro entre os corpos. Esta ruptura é nomeada de “puberdade”, como magnificamente podemos ver Freud anunciar em um capítulo de “Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade”.

Cabe ao analista recolher as escolhas sintomáticas em relação a esse impossível encontrado na puberdade. E, portanto, recolher as saídas e os impasses na ruptura que se dá entre a infância e a adolescência, pelo que a clínica nos ensina. Esta é a proposta das Jornadas da EBP-São Paulo este ano.

 


Eixos Temáticos

  1. As “metamorfoses da puberdade”

Se os conceitos de infância e adolescência não repousam na “natureza”, mas são efeitos do discurso, como defini-los a partir da psicanálise? Como situar a proposição freudiana das “metamorfoses da puberdade”, centrada nas transformações anatômicas e fisiológicas a partir do ensino de Lacan, que não reduz o corpo ao organismo? Para além das ficções socialmente compartilhadas sobre infância e adolescência, haveria um real próprio da estrutura que irrompe na puberdade? A noção da adolescência seria um sintoma da nossa sociedade “adolescente” que posterga a maturidade, ou haveria uma “crise” necessária na adolescência?

  1. Como as crianças e os adolescentes constroem seus corpos hoje?

Tal como propõe Daniel Roy, “a metamorfose que a puberdade produz é uma nova e radical distinção entre o menino e a menina”[1], que não se resume às identificações da infância pautadas na primazia do significante fálico, mas envolve a satisfação do gozo dito sexual e o confronto com o corpo do Outro, para o qual falta um saber no real. Como o corpo está implicado no processo de diferenciação sexual nos pré e pós púberes? Aos desafios que a escansão da puberdade requer em termos de reconstrução das identificações sexuais e reconfigurações do narcisismo, é preciso acrescentar o abalo das categorias homem/mulher, desmanteladas pelo próprio trabalho da civilização no século XXI. Como as crianças e os adolescentes constroem seus corpos e estabelecem suas “escolhas de objeto”, quando se multiplicam as identificações de gênero? Como a sexualidade chega às crianças e aos adolescentes nos tempos em que o empuxo à satisfação se generaliza? Qual o estatuto das marcas no corpo, destas inscrições cada vez mais comuns entre os adolescentes?

  1. Os arranjos sintomáticos na infância e adolescência

Não raro nos deparamos com uma posição onde, apesar da existência de um mal estar, não há endereçamento de saber ao Outro, o que nos lança a investigar as formas de socialização para crianças e adolescentes na atualidade. Quais as novas respostas sintomáticas na infância e quais os arranjos frente à puberdade que os adolescentes inventam hoje? Além das respostas que resultam da crise com o saber, estão aquelas que colocam em evidência a dificuldade no plano das identificações, envolvendo a formação dos grupos na adolescência e a extensão das redes sociais no mundo virtual. Ademais, interessa-nos investigar os acting outs e as passagens ao ato, como a errância, o consumismo, as toxicomanias, as adições, bem como os casos de suicídios, cada vez mais frequentes entre os adolescentes.

  1. Crianças e adolescentes nas instituições

As ordens social e jurídica não esgotam seus argumentos para apontar a falha da família em exercer sua função: bem educar sua prole. As medidas protetivas e/ou punitivas muitas vezes se transformam em meios de segregação nos quais o dizer da criança e do adolescente não têm ressonância. O desejo é apagado, dando lugar aos excessos de gozo, seja nas atuações das crianças e adolescentes, seja no imperativo da aplicação da regra.  Como o discurso da psicanálise circula e como pode protagonizar experiências que demonstrem a possibilidade de fazer furo na “ordem de ferro” normativa? Interessa-nos, ainda, investigar os efeitos da medicalização, os usos do diagnóstico, o Estatuto da Criança e do Adolescente, os casos de adoção, de abrigamento, as medidas protetivas etc.

  1. Crianças e jovens em análise

Sob transferência, o que as crianças e os adolescentes no dispositivo analítico ensinam aos psicanalistas hoje? Qual o lugar dos pais no tratamento e quais as peculiaridades no manejo transferencial? Como situar a questão do diagnóstico estrutural e suas dificuldades na infância e adolescência? Como terminam as análises e quais os impasses no tratamento com crianças a adolescentes?

 

 


[1] Roy, Daniel. « Protection de l’adolescence ». In : Mental, Paris: Fédération Européenne des Écoles de Psychanalyse, n.23, 2009, p. 52.