Apresentação

Caros colegas,

Este é o primeiro número de uma série do Boletim Tá ligado? que vocês receberão até o dia da realização das Jornadas da EBP-SP, que acontecerão nos dias 26 e 27 de agosto deste ano, sobre o tema Infância e adolescência. Impasses e saídas.

Contrariamente ao que pode parecer, o título não se deixa revelar facilmente. A começar pela própria definição, em si mesma bastante controversa, do que entendemos por infância eadolescência. Com efeito, afinados com o espírito nominalista reinante da época, estamos hoje todos bem advertidos de que ambas as noções implicam uma “construção” histórica e social, ou seja, de que seus fundamentos repousam no discurso.

Seguindo ainda a recente intervenção de Jacques-Alain Miller sobre o tema, a definição cronológica da adolescência não se superpõe às definições biológica, psicológica, sociológica etc., e não é nada óbvio qual seria a definição psicanalítica, se é que ela existe. Convém aqui evocar também o célebre historiador Philippe Ariès, para lembrar que as noções de infância e adolescência são datadas, desconstruindo a suposição de que seus fundamentos estariam no real da maturação biológica do organismo.

A propósito das “metamorfoses da puberdade”, Freud evocava as transformações do corpo na saída da infância. Mas, qual corpo estaria aí implicado?

Nosso convidado de Bordeaux, o psicanalista e psiquiatra Daniel Roy – que há anos se dedica ao trabalho com crianças e adolescentes e a quem teremos a honra de receber nestas Jornadas –, sugere que convém evitar a rápida compreensão da puberdade centrada nas transformações fisiológica e anatômica do organismo, lembrando que o corpo em questão é o da sexuação que, com as transformações da puberdade, confronta-se com o troumatismo da realidade sexual do inconsciente e com o gozo sexual que não inscreve a relação com o Outro sexo.

A todo vapor, a equipe da Comissão de Biblioteca selecionou uma conferência do convidado que vocês podem assistir no vídeo indicado na seção ibooks, acompanhado de uma resenha cuidadosa. Confiram!

Tal como formulam alguns autores, seria a adolescência mesma, consolidada talvez no século passado, um sintoma da nossa sociedade “adolescente” que o valoriza e eterniza, postergando o ato próprio da maturidade?

Certamente, estar à altura da época requer, hoje mais do que nunca, deixar-se ensinar por aquilo que cada criança e adolescente, na sua singularidade, tem a dizer sobre seu singular sofrimento. Quais as saídas possíveis frente aos (novos) impasses do parlêtre nessa “delicada transição”, mas que do seu sinthoma não se desvencilha?

As contribuições que cada um de vocês aportará ao debate serão decisivas. Como Coordenadora destas Jornadas, gostaria de agradecer em especial à Diretoria da EBP-SP pelo convite, pela confiança em mim depositada para a organização deste evento, bem como a todas as pessoas envolvidas que já trabalham intensamente nas Comissões, cuidando de cada detalhe para sua realização. E, sobretudo, desde já, gostaria de agradecer a cada um de vocês pelo trabalho coletivo que reunirá, uma vez mais, a nossa Seção e aqueles que dela se aproximam pelas transferências de trabalho.

 

Maria Josefina Sota Fuentes
Coordenadora Geral das Jornadas da EBP-SP/2016