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As identidades de gênero

Maria Helena Barbosa
EBP/AMP

 

“A Comissão de Direitos Humanos de Nova York (EUA) decidiu oficializar a multiplicidade das identidades de gênero, e passou a reconhecer 31 diferentes nomenclaturas de gênero para serem usadas em âmbitos profissionais e oficiais”.

Esta é uma das notícias da semana que se articula ao tema das Jornadas da EBP-SP, Pai-versões.

A multi-versão de gêneros é um fato, um fenômeno na e da atualidade que põe em cheque o dueto homem/mulher, usado desde os idos tempos, para ordenar a distribuição dos papéis sexuais na civilização. Este fenômeno, em seu sentido próprio, revela uma diversidade de papéis sexuais que colocam em questão a sexualidade na abordagem psicanalítica.  

Na experiência analítica há um privilégio do objeto falo. Aqui, o privilégio que tratamos de destacar se liga aos elementos estruturais e suas relações, envolvidos na constituição da identidade sexual. O falo é o pivô que viabiliza a introdução do sujeito na dialética do ser humano como sujeito falante, desde a relação mais primitiva com a mãe, na entrada em jogo do Édipo e da Lei, e seus avatares.

A primeira relação abordada é o falo na relação com o Outro. Das duas, uma: ou o sujeito é o falo para este Outro, ou este Outro já tem certa relação com o falo. Aqui, evidentemente, estamos abordando a relação primordial da mãe com a criança.

Se o sujeito é o falo da mãe, ou sucumbe como dejeto do par genitor, entra com ela numa relação dual que, no limite, apresenta-se como um real indiferente ao simbólico, fixado à identificação fálica, como apontou J.-A Miller, em A criança entre a mulher e a mãe.

Se o sujeito não preenche a mãe, na medida em que ela se divide entre a maternidade e o não-todo do desejo feminino, resta a ele estabelecer uma competição com o falo, o que possibilitará acesso a uma significação fálica. 

A segunda relação é a do sujeito na relação com o falo. São duas relações possíveis: ser ou ter o falo. Como destaca Lacan, “Ela é essencial, na medida em que sê-lo e tê-lo não acontece no mesmo tempo da relação de identificação, e em que as incidências não são as mesmas num e no outro caso .” Aqui, a identificação de que se trata é a que promove a distribuição dos papéis: o sujeito masculino e o sujeito feminino – uma linha demarcatória. Aqui estamos falando do Édipo e da Lei.

Já a terceira relação, a do falo na relação com o ser do sujeito, é onde apreendemos o máximo possível da dialética na relação ao falo. Lacan aponta que, “(...) não estamos falando do puro e simples sujeito, (...) estamos falando de um sujeito falante, do sujeito como aquele que assume sua identidade no campo da linguagem1.”

Nesta relação, o falo possui uma função essencialmente significante. Nela, o sujeito é e não é o falo ao mesmo tempo. Por um lado, é o falo porque é o significante sob o qual a linguagem o designa e, por outro, não é o falo, porque a lei da linguagem o subtrai – o que nos remete à questão da ex-sistência do ser.

Por um lado, a lei ordenando a escolha entre ser ou ter o falo e, por outro e ao mesmo tempo, a identificação significante onde o sujeito é e não é o falo. Lacan confere a esse momento o adjetivo decisivo, “aquele em torno do qual se dá a assunção da castração. A fórmula é essa: sim, pode-se dizer que o sujeito é e não é o falo, mas ele não é sem tê-lo”2.

A assunção da castração acontece no intervalo entre ser e não ser e ter e não ter,pela mudança de orientação em que o não ser sem se acrescenta. Nele o valor central do falo enquanto objeto adquire uma função de equivalência, introduzindo o mundo dos objetos característico da experiência humana.

O não ser sem é o que valerá para o homem e, para o sujeito feminino, em relação ao falo, valerá seu oposto: ser sem ter.

A tábua da sexuação na psicanálise possui uma linha demarcatória – um lado masculino, outro feminino. Uma linha demarcatória que, para além de colocá-los, homem e mulher, separados, estabelece a radical diferença que determina a não relação sexual.

Outras duas relações essenciais a se levar em conta na constituição subjetiva são a relação primordial da criança com o corpo da mãe, onde se inscrevem as relações da criança com o corpo próprio. Com a inclusão do corpo da mãe e o corpo próprio, entramos no campo da relação de objeto.

No encontro destes corpos, o corpo despedaçado do sujeito em seu estado primitivo terá como suporte o corpo da mãe apreendido em sua totalidade, que se apresenta como o UM no nível do Outro, o objeto imaginário da identificação primitiva, onde “é na medida em que a criança se identifica com certa posição de seu ser nos poderes da mãe que ela se realiza”3.

É a identificação primária, o I, resultado do processo intencional que é a captura do Isso freudiano pela linguagem, mesmo que numa forma primitiva de apreensão pelo sujeito, uma primeira realização de um ideal, uma primeira chancela de sua relação com o Outro, o que posteriormente se constituirá no Ideal do eu.

Essa é a matriz pela qual seestabelecerá a outra relação, a relação entre a criança e o corpo próprio, ou seja, entre o sujeito, que se constitui de modo especular, como eu, e o outro, certo outro que não sua mãe, o pequeno outro. É a experiência original que fornece a estrutura do narcisismo, onde “o sujeito se reconhece ao mesmo tempo como separado da imagem de seu próprio corpo e como tendo certa relação eletiva com ela”4.

Aqui destacamos o i(a), como elemento imaginário implicado e onde posteriormente acontecerá a integração da imagem do corpo e a constituição do narcisismo primário, lugar do investimento das relações autoeróticas do sujeito consigo mesmo, o eu ideal.

De um lado, a mãe é realizada como totalidade e ocorre a primeira identificação ideal do sujeito, o I, e, de outro, o sujeito superou a fragmentação, assumindo uma totalidade conferida por sua relação eletiva com a imagem, o i(a).

No entanto, o que a experiência analítica nos mostra é que não há nenhuma possibilidade de acesso à apreensão de uma totalidade. O sujeito é dividido, partido, em última instância um ser em quem falta algo.

Por um lado, encontra-se o sujeito que adquiriu sua identidade no campo da linguagem e, por outro, a relação de objeto, e entre eles um intervalo. Neste intervalo, o sujeito encontra-se sem o suporte da cadeia significante para nomeá-lo – um ponto de apogeu, segundo Lacan. Há algo no sujeito que se articula para além de todo o possível e que o convoca a sustentar, mesmo assim – o sujeito está implicado ali.

Esse é o ponto em que o sujeito extrai de sua própria substância o objeto que cumprirá a função significante para sustentá-lo. O objeto, posto em seu justo lugar na experiência analítica, se apresenta em formas que cumprem por onde e como ele pode dispor-se à função de castração.

No estabelecimento destas relações, há uma constante divisão que se introduz regularmente no registro do objeto – há o objeto de amor, onde doamos nossa unicidade ao outro, e há o plano em que mesmo esse outro é considerado instrumento do desejo, onde é do outro que se espera que ele satisfaça da forma mais exata possível o que, no plano do desejo, é promovido como objeto – amor e desejo são disjuntos.

Na clínica analítica encontramos uma literatura farta que apresenta diversos casos e as estratégias adotadas que apontam por onde cada um pode se haver com sua inefável existência e os tormentos do desejo, o mal-estar na civilização. Schreber lançou mão da voz no delírio em que se realizou mulher de Deus; Gide tinha em Madeleine o objeto de seu amor e nas crianças o objeto de seu desejo; o Homem dos Lobos tinha uma condição específica para despertar seu desejo sexual; o amor da jovem homossexual pela mulher com o qual ela censura o pai; o Pequeno Hans e a identificação ao objeto imaginário do desejo feminino; ou, ainda, Joyce com sua obra.

Ao longo das eras, vimos a articulação religiosa, moral e política apresentar diversas tentativas de acomodação do amor ao desejo, e a questão do desejo permanece no primeiro plano das preocupações dos poderes.

Talvez, para abordar a multi-versão dos gêneros, seja o caso de se voltar mais para como esses se articulam e se referem à relação de objeto, que uma vez em suas formas próprias, foram o recurso empregado frente ao real da castração. Talvez por aí seja possível encontrar os índices da posição do sujeito na relação com a sexualidade.
 


1
Lacan, J. O Seminário, Livro 6: “O desejo e sua interpretação”. Zahar: Rio de Janeiro, 2016, p.234.
2 Idem.
3 P. 239
4 P. 237.