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Pluralização

Luis Tudanca
AME da EOL e da AMP

 

Nome do Pai e desejo da mãedublin

O Nome do Pai substitui o desejo da mãe que substitui X. Desde o início em Lacan o que chamamos de substituição como característica fundamental da metáfora paterna inclui um duplo processo que designou com o nome de quaternário metafórico.

A metáfora inclui a metonímia que nos aproxima ao (X).
Se depois dizermos que o essencial da operação que institui o Nome do Pai é a proibição, não devemos esquecer que a mesma é segunda a respeito de uma operação anterior.

Função

Se Freud recorreu ao mito, Lacan diminui o seu valor, sempre misturado com patetismos variados da figura do pai.

Se consolida assim uma passagem do pai como significante ao pai como função.
Não faz falta nenhum mito da origem: existe a função paternidade F(x) que poderíamos escrever Fp(x).


Dita função se cumpre sempre e quando alguém concreto, de carne e osso, decide se inscrever no (x) da função.

Esse “alguém concreto” pode fazê-lo ou não. Abre-se assim uma multiplicidade de maneiras de inscrever-se, ou seja, de cumprir essa função.

O que é certeza: uma coisa é a função, outra coisa é a maneira como cada um se inscreve nessa função, ou seja, como se encarna em um sujeito a dita função, como são as realizações que há no domínio da extensão de dita função.

Com essa concepção já se obtém a passagem do Nome do Pai aos Nomes do Pai. Quando falamos em decadência do Nome do Pai nos referimos mais a “alguém concreto” do que à função.

Exceção

Mas Lacan acrescenta nesta passagem que “é preciso que qualquer um possa fazer exceção para que a função de exceção se torne modelo1 ” Também esclarece que a recíproca não é verdadeira.

É preciso aceitar o paradoxo de um modelo singular, sede possível de identificações. Se esse modelo se coloca como universal, estamos na psicose.

Se for sublinhado o argumento da função, o (X), o valor que adquire essa função se singulariza. É preciso verificar esse funcionamento, ou seja, como funciona caso a caso.

Com a função, pensada assim, se obtém o pai um por um, ou seja, sua pluralização.

É uma verdadeira desconstrução do pai como universal.

A partir disso, fica aberta a porta de como se cumpriu essa função, ou seja, a inevitabilidade de sua falha, de seu fracasso.

Pai-versão

Sem derrubar nenhum dos desenvolvimentos anteriores, quando chegamos ao pai como Pai-versão, o que está em jogo não é mais a dificuldade na realização do ideal do pai, de cumprir com a função, senão como alguém se vira no encontro sexual com uma mulher.

Passagem da função, simbólica mas já muito depurada de mito, em certo sentido desimaginarizada, a uma questão mais real: não há relação sexual. Considerar uma mulher como objeto “a”, causa de desejo, dá direito a um amor-respeito tido no sentido de quem soube entrar no mal-entendido da confrontação sexual com uma mulher.

Seguimos instalados na pluralização, abordada agora desde outro ângulo.

Chegados a esse ponto, Lacan retoma o Pai-exceção “(…) junto aos quais (se refere aos filhos) intervém – excepcionalmente no melhor dos casos – para manter na repressão, e no justo mi-dieu, a versão que lhe é própria por sua Pai-versão”.2


O central neste parágrafo é que Lacan nos explica como intervém e desde onde o faz um pai.

O termo que usa, mi-dieu, literalmente meio-deus, alude ao juste milieu (justo meio) e se aproxima ao mi-dire (meio dizer).

Difícil circunscrever dita intervenção: trata-se de um dizer? Não exatamente. Em todo caso é um dizer sem dizer. Aproxima-se de uma proibição? Tampouco totalmente.

Não se indica totalmente o proibido, nem se sabe muito bem ao quê lhe foi dito ‘não’.

Nada é suficientemente explícito nem se elucida por dedução.

Algo permanece implícito. E para que não se confunda a intervenção com o pai da realidade, Lacan acrescenta deste último o pouco importante que ele tenha sintomas, posto que a Pai-versão é algo que se acrescenta a eles.

Sintoma

Isolados os sintomas de um pai resta o sintoma em singular. Sintoma ou sinthoma?

No seminário 23 Lacan parece subtrair importância a essa distinção. Ali afirma que a Pai-versão "quer dizer apenas versão em direção ao pai – em suma, o pai é um sintoma, ou um sinthoma, se quiserem"3.

Mas do "RSI" se pode deduzir algo mais.

Proponho seguir os passos da construção que Lacan realiza ali.

Primeiro passo: O sintoma é a maneira em que cada um goza do inconsciente.

Segundo passo: Uma mulher é um sintoma.

Terceiro passo: Fazê-la sintoma, uma mulher, é dizer que o gozo fálico é também assunto dela.

Apenas neste passo estamos na Pai-versão.

Quarto passo: Mas o sintoma é definido como reticências. A respeito disso Lacan esclarece que "as reticências do sintoma são de fato pontos, se posso dizer, de interrogação na não-relação4".

Sintoma ou sinthome agrava o encontro sexual sustentado no mal-entendido.

Do pai como Pai-versão ao pai como sintoma ou sinthome a diferença, se houver, não é clara nem contundente.

Mas uma coisa se evidencia: a intervenção paterna sobre o filho provém de um passo anterior: trata-se de como um homem pega uma mulher, a faz sintoma desde seu sintoma, acredita aí (croire y) e somente assim, a partir daí, intervém como pai singular.

 

 

Tradução: Blanca Musachi.

1 Lacan, Jacques: El seminario “RSI”. Aula de 21/01/75 Inédito.
2 Lacan, Jacques: IBID (1).
3 Lacan, Jacques: O seminário Libro 23 “O sinthoma”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007, p. 21.
4 Lacan, Jacques: IBID (3).