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“Leitura crítica dos Complexos Familiares, de Jacques Lacan” 1

Por Carla Audi
Psicanalista
 

Jacques-Alain Miller, em sua leitura críticadosComplexos familiares na formação do indivíduo1, examina a primeira partedeste texto e adverte que ele deva ser lido como precursor do ensino de Lacan, de um Lacan pré-estruturalista. Trata-se de uma síntese do desenvolvimento psíquico, -“a primeira teoria desenvolvimento em Lacan”-, cuja tese principal é a desnaturalização do homem e o tratamento da família como um fato social. Ele ainda não dispunha dos conceitos de simbólico, Outro, significante e estrutura, embora já houvesse formulado a distinção rigorosa entre o moi e o sujeito em seu Estádio do Espelho, seuponto de partida e sua porta de entrada na psicanálise. Em 1938, este texto funciona também e não somente, como uma resposta de Lacan a egopsychology: “no que concerne à definição do homem, nada se pode definir de seu psiquismo a partir da adaptação vital”.

Lacan exclui “desde o princípio, o instinto puro do que concerne ao homem, valorizando, em contrapartida, a instância constitutiva da dimensão chamada por ele a cultura, em tudo o que diz respeito ao homem”2. Neste sentido, há uma prevalência da cultura sobre a natureza no humano. O ponto massivo e decisivo neste texto é a definição de ordem humana como sendo subversiva a toda fixidez do instinto e Lacan serve-se de um conceito operatório, o de complexo, como chave de sua teoria do desenvolvimento e da psicopatologia.

Lacan instaura uma sequência escandida em três fases para dar conta de sua teoria do desenvolvimento psíquico: o desmame, a intrusão e o Édipo. No entanto, as escansões desse desenvolvimento só adquirem significação por retroação do complexo de Édipo, onde as perdas anteriores não devem ser tratadas como puras feridas narcísicas, mas sim ordenadas a partir da castração.

Quanto ao desmame trata-se de uma regulação cultural e não natural, uma vez que não há nada instintivo entre a mãe e a criança na espécie humana. Não se encontra no desmame uma fixidez comparável ao instinto, porquanto o humano inventou várias formas de desmame. O corolário desta afirmação é “não há relação com o objeto, não há relação sexual”. Ao não estar escrito no instinto, há lugar para invenção humana no simbólico, precisamente porque neste lugar nada está escrito”.

Lacan assinala a ligação imago-complexo no desmame expressa através da perda de objeto, onde o seio materno ao ser perdido, imprime o complexo como tal. É apenas na perdaque o complexo se realiza, ainda que haja os remanejamentos dialéticos que ele sofrerá. O complexo de desmame é o mais primitivo e revela no texto a primariedade da mãe. Mesmo no complexo de castração, na fantasia da castração é a mãe que se encontra na origem. O pai encontra-se fora do jogo, uma vez que toda esfera fantasística encontra-se dominada pela presença materna do desmame ao Édipo. A função do pai aparece aí qualificada como imago, único termo de que Lacan dispunha à época.

No que se refere ao instinto de morte freudiano, Lacan valida a tendência à morte, no momento em que fala do desmame, quando articula a ligação entre morte e mãe. Tudo o que é fantasia de morte, evocação da morte, tendência ao suicídio está ligado à imago materna. A mãe preside a perda primitiva - a do seio- e a imago materna é lembrada pelo sujeito, com intensidade variável a cada vez que uma perda de gozo intervém. A imago materna paira sobre todas as conexões com a morte, o que faz do pai uma função de reparação, uma função de sublimação segundo Lacan.

Na segunda escansão após o desmame, o complexo de intrusão, Lacan relaciona e retoma o “Estádio do espelho”, cujo objeto-imago é o semelhante.

Lacan retoma em sua terceira e última escansão, o Complexo de Édipo freudiano através da fantasia de castração. Ao retomar o Édipo pela fantasia de castração, o que ele revela é a dominância da mãe como desencadeante, visto que não é a irrupção do desejo genital que motiva o Édipo, mas sim a reatualização da imago materna primitiva através da angústia que esta pode suscitar.

Tratar a castração como fantasia é defini-la como defesa do eu narcísico diante da angústia que reatualiza a mãe, referência a pré- maturação primária, a esse corpo vivido como despedaçado. Trata-se de uma teoria da castração estritamente imaginária e portanto parcial.

O que o Édipo freudiano valoriza é a oposição entre identificação e desejo e Lacan sustenta que uma clivagem se interpõe entre objeto desejado e identificação. Por isso o desejo genital não é angústia, ela vem depois. O desejo genital reatualiza a mãe como objeto fundamental de desejo e o pai é este outro objeto posto em cena que obstaculiza a realização deste desejo pela via da identificação. Aqui Lacan introduz a imago do pai que é em si mesma toda sublimação no que diz respeito à satisfação do desejo. O pai como objeto vem se diferenciar do objeto-primeiro mãe, uma vez que ele não é um objeto de satisfação, mas sim de identificação ideal:  “nesse texto, a imago paterna é muito classicamente encarregada dessa função de idealizar e, é preciso dizê-lo, idealizante. Aqui se prepara o Nome-do-Pai”3. Falta ainda a Lacan o conceito de Outro, embora ele esteja evocado através deste outro sublimado que preside o que pode haver de acordo entre o sujeito e sua existência.

O que fica aí evidenciado é o tratamento que Lacan dá ao Édipo freudiano como protótipo da sublimação: condensação que Lacan formula, sem ainda dispor do conceito de significante. Na falta do conceito de significante como sendo o que transgride e ordena as formas imaginárias, ele se serve da sublimação como essa luz de surpresa que transfigura um objeto dissolvendo suas equivalências no sujeito; objeto este não mais tido como meio de satisfação, mas sim tornado polo das criações da paixão.

Em suma, Lacan na primeira parte de seus Complexos familiares..., examina o status do homem moderno em relação a imago paterna, estuda a relatividade do matriarcado e do patriarcado, atribui ao declínio da imago paterna tanto a neurose contemporânea como a emergência da psicanálise, formula a evolução da neurose de caráter fazendo dela um tipo especial, afere a dialética das sublimações e, last but not least, exaure o élan instintivo.
     
 

1 LACAN, J. (2003). Complexos familiares na formação do indivíduo”. In Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor (p.29)

2MILLER, J-A. Leitura crítica dos “Complexos Familiares”, de Jacques Lacan. In Opção Lacaniana online (p.3). http://www.opcaolacaniana.com.br/antigos/n2/pdf/artigos/JAMLeitura.pdf

3MILLER, J-A. Leitura crítica dos “Complexos Familiares”, de Jacques Lacan. In Opção Lacaniana online (p.14). http://www.opcaolacaniana.com.br/antigos/n2/pdf/artigos/JAMLeitura.pdf