boletim
HOMEHOME

Referências Bibliográficas - Sigmund Freud

FREUD S., “Romances Familiares” (1906-1908) In Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, Vol. IX, Gradiva de Jansen e outros trabalhos, Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Pg. 243 – “Ao crescer, o indivíduo liberta-se da autoridade dos pais, o que constitui um dos mais necessários, ainda que mais dolorosos, resultados do curso do seu desenvolvimento”. (...) “Os pais constituem para criança pequena a autoridade única e a fonte de todos os conhecimentos. O desejo mais intenso e mais importante da criança nesses primeiros anos é igualar-se aos pais (isto é, ao progenitor do mesmo sexo), e ser grande como seu pai e sua mãe”.

Pg. 244 – “Mas já aqui evidencia-se a influência do sexo, pois o menino tem maiores tendências a sentir impulsos hostis contra o pai do que contra a mãe, tendo um desejo bem mais intenso de libertar-se dele do que dela”. (...) “Esses impulsos mentais da infância conscientemente lembrados constituem o fator que nos permite entender a natureza dos mitos”.

Pg. 245 – “Quando finalmente a criança venha conhecer a diferença entre os papéis desempenhados pelos pais e pelas mães em suas relações sexuais, e compreende que ‘pater semper incertus est’, enquanto a mãe é ‘certíssima’, o romance familiar sofre uma curiosa restrição: contentasse em exaltar o pai da criança, deixando de lançar dúvidas sobre sua origem materna, que é encarada como fato indiscutível”.
 
Pg. 246 – “A infidelidade e a ingratidão são apenas aparentes. Se examinarmos em detalhe o mais comum desses romances imaginativos, a substituição dos pais, ou só do pai, por pessoas de melhor situação, veremos que a criança atribui a esses novos e aristocráticos pais qualidades que se originam das recordações reais dos pais mais humildes e verdadeiros. Dessa forma a criança não está se descartando do pai, mas enaltecendo-o. Na verdade, todo esse esforço para substituir o pai verdadeiro por um que lhe é superior nada mais é do que a expressão da saudade que a criança tem dos dias felizes do passado, quando o pai lhe parecia o mais nobre e o mais forte dos homens, e a mãe a mais linda e amável das mulheres. Ela dá as costas ao pai, tal como o conhece no presente, para voltar-se para aquele pai em quem confiava nos primeiros anos de sua infância, e a sua fantasia é a expressão de um lamento pelos dias felizes que se foram”.

Pg. 247 – “Assim, a supervalorização dos pais pela criança sobrevive também nos sonhos de adultos normais”.
                              

FREUD S., “Totem e Tabu” (1913-1914) In Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, Vol. XIII, “Totem e Tabu e outros trabalhos”, Rio de Janeiro: Imago, 1974.

Pg. 37 – “Chegamos ao ponto de considerar a relação de uma criança com os pais, dominada como é por desejos incestuosos, como o complexo nuclear das neuroses”.

Pg. 155 – “Mas alguns casos de fobias desse tipo dirigidas no sentido de animais maiores mostraram-se acessíveis à análise e revelaram assim seu segredo ao investigador. Era a mesma coisa em todos os casos: quando a criança em causa eram meninos, o medo, no fundo, estava relacionado com o pai e havia simplesmente sido deslocado para o animal”.

Pg. 156 – “O fato novo que aprendemos com a análise do ‘pequeno Hans’ – fato com uma importante relação com o totemismo – foi que, em tais circunstâncias, as crianças deslocam alguns de seus sentimentos do pai para o animal”.
“A criança se alivia do conflito que surge dessa atitude emocional de duplo aspecto, ambivalente, para com o pai deslocando seus sentimentos hostis e temerosos para um substituto daquele”.

Pg. 157 – “O mesmo papel é desempenhado pelo pai tanto no complexo de Édipo quanto no complexo de Castração, ou seja, o papel de um inimigo temível dos interesses sexuais da infância. O castigo com que ele ameaça é a castração, ou o seu substituto, a cegueira”.

Pg. 163 – “O parentesco é algo mais antigo que a vida familiar e, na maioria das sociedades primitivas que nos são conhecidas, a família continha membros de mais de um parentesco”.

Pg. 169 – “Naturalmente, não há lugar para os primórdios do totemismo na horda primeva de Darwin. Tudo o que aí encontramos é um pai violento e ciumento que guarda todas as fêmeas para si próprio e expulsa os filhos à medida que crescem”.

Pg. 171 – “O pai morto tornou-se mais forte do que fora vivo – pois os acontecimentos tomaram o curso que com tanta frequência os vemos tomar nos assuntos humanos ainda hoje”.

Pg. 173 – “O sistema totêmico foi, por assim dizer, um pacto com o pai, no qual este prometia-lhes tudo o que uma imaginação infantil pode esperar de um pai – proteção, cuidado e indulgência – enquanto que, por seu lado, comprometiam-se a respeitar-lhe a vida, isto é, não repetir o ato que causara a destruição do pai real”.

Pg. 175-176 – “A psicanálise dos seres humanos de per si, contudo, ensina-nos com insistência muito especial que o deus de cada um deles é formado à semelhança do pai, que a relação pessoal com Deus depende da relação com o pai de carne e osso e oscila e se modifica de acordo com essa relação e que, no fundo, Deus nada mais é que um pai glorificado”. “(...) Mas, nesse caso, o pai é representado duas vezes na situação do sacrifício primitivo: uma vez como Deus e outra como a vítima animal totêmica”. (...) “Assim, embora o totem possa ser a primeira forma de representante paterno, o deus será uma forma posterior, na qual o pai reconquistou sua aparência humana”.

Pg. 178 – “A família constituiu uma restauração da antiga horda primeva e devolveu aos pais uma grande parte de seus antigos direitos”. (...) “A importância que em toda parte, sem exceção, é atribuída ao sacrifício reside no fato de ele oferecer satisfação ao pai pelo ultraje que lhe foi infligido no mesmo ato em que aquele feito é comemorado”.

Pg. 183 – “O próprio ato pelo qual o filho oferecia a maior expiação possível ao pai conduzia-o, ao mesmo tempo, à realização de seus desejos contra o pai. Ele próprio tornava-se Deus, ao lado, ou, mais corretamente, em lugar do pai”.

Pg. 185-186 – “Parece-me ser uma descoberta muito surpreendente que também os problemas da psicologia social se mostrem solúveis com base num único ponto concreto: –a relação do homem com o pai”.

FREUD S., “Moisés e o monoteísmo” (1937-1939) In Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, Vol. XXIII, Moises e o monoteísmo. Esboço de psicanálise e outros trabalhos, Rio de Janeiro: Imago, 1975.

Pg. 24 – “O herói é alguém que teve a coragem de rebelar-se contra o pai e, ao final, sobrepujou-o vitoriosamente”.

Pg. 25 – “Na verdade, contudo, a fonte de toda ficção poética é aquilo que é conhecido como o ‘romance familiar’ de uma criança, no qual o filho reage a uma modificação em sua relação emocional com os genitores e, em especial, com o pai. Os primeiros anos de uma criança são dominados por uma enorme supervalorização do pai”. (...) “Mais tarde, sob a influência da rivalidade e do desapontamento na vida real, a criança começa a desligar-se deles e adotar uma atitude crítica para com o pai. Assim, ambas as famílias do mito – a aristocrática e a humilde – são reflexos da própria família da criança, tal como lhe apareceram em períodos sucessivos de sua vida”.

Pg. 27 – “Retornemos às duas famílias do mito. No nível da interpretação analítica, elas são, como sabemos, idênticas, ao passo que no nível do mito são diferenciadas em uma família aristocrática e em outra humilde”.

 Pg. 75 – “Desde aquela época nunca duvidei de que os fenômenos religiosos só podem ser compreendidos segundo o padrão dos sintomas neuróticos individuais que nos sãos familiares – como o retorno de acontecimentos importantes, há muito tempo esquecidos, na história primeva da família humana – e de que eles têm de agradecer exatamente a essa origem por seu caráter compulsivo, e de que, por conseguinte, são eficazes sobre os seres humanos por força da verdade histórica de seu conteúdo”.

Pg. 100 – “Quando aprendemos que, em ambos os casos, os traumas operantes e esquecidos se referem à vida na família humana, podemos acolher isso como um prêmio altamente bem-vindo e imprevisto, que não foi invocado por nossos estudos até esse ponto”.

Pg. 101 – “Isto é, supomos que eles não apenas odiaram e temeram o pai, mas também o honraram como modelo, e que cada um deles desejou ocupar seu lugar na realidade”.

Pg. 101/102 – “Cada indivíduo renunciou a seu ideal de adquirir a posição do pai para si e de possuir a mãe e as irmãs. Assim, surgiram o tabu do incesto e a injunção à exogamia”.

Pg. 103 – “Os novos pais, é verdade, jamais conquistaram a onipotência do pai primevo...”.

Pg. 107 – “Mas não importa que aquilo que temos aqui seja uma fantasia ou o retorno de uma realidade esquecida; seja como for, a origem do conceito de um herói deve ser encontrada neste ponto: o herói que sempre se rebela contra o pai e o mata sob uma forma ou outra”.

Pg. 107-108 – “A ambivalência que domina a relação com o pai foi claramente demonstrada, contudo, no desfecho final da inovação religiosa. Ostensivamente visando a propiciar o deus paterno, termina por ele ser destronado e por livrar-se dele. O judaísmo fora uma religião do pai; o cristianismo tornou-se uma religião do filho. O antigo Deus Pai tombou para trás de Cristo; Cristo, o Filho, tomou seu lugar, tal como todo filho tivera esperanças de fazê-lo, nos tempos primevos”.

Pg. 131 – “Já aprendemos com a psicologia dos indivíduos qual é a origem dessa necessidade das massas. Trata-se de um anseio pelo pai que é sentido por todos, da infância em diante, do mesmo pai a quem o herói da lenda se gaba de ter derrotado. E pode então começar a raiar em nós que todas as características com que aparelhamos os grandes homens são características paternas, e que a essência dos grandes homens, pela qual em vão buscamos, reside nessa conformidade. (...) Deveríamos ter sido levados a entender isso pela própria expressão: quem, senão o pai, poderia ter sido o ‘homem grande’ na infância? ”.

Pg. 132 – “Se, por um lado, vemos assim a figura do grande homem exalçada a proporções divinas, por outro, contudo, temos de recordar que também o pai foi outrora uma criança”.

Pg. 140 – “Pode-se dizer que o grande homem é exatamente a autoridade por cujo amor a realização é levada a cabo; e, visto que o próprio grande homem opera por virtude de sua semelhança com o pai, não há necessidade de sentir surpresa se, na psicologia de grupo, o papel de superego cabe a ele”.

Pg. 142 – “A parte essencial desse curso de acontecimentos repete-se no desenvolvimento abreviado do indivíduo humano. Também aqui é a autoridade dos pais da criança – essencialmente, a de seu pai autocrático, a ameaçá-la com seu poder de punir – que lhe exige uma renúncia ao instinto e que por ela decide o que lhe deve ser concedido e proibido. Mais tarde, quando a Sociedade e o superego assumiram o lugar dos pais, o que na criança era chamado de ‘bem-comportado’ ou ‘travesso’, é descrito como ‘bom’ e ‘mau’, ou ‘virtuoso’ e ‘vicioso’. Mas ainda é sempre a mesma coisa – renúncia instintual sob a pressão da autoridade que substitui e prolonga o pai”.

Pg. 144 – “Nossa construção da pré-história nos força a outra explicação. A ordem favor da exogamia, da qual o horror ao incesto é a expressão negativa, era um produto da vontade do pai e deu continuidade a essa vontade depois que ele foi afastado. Daí provém a força de seu tom emocional e a impossibilidade de descobrir uma base racional para ela – isto é, sua sacralidade”. (...) “Trata-se da ambivalência que em geral domina a relação com o pai. [O latim] ‘sacer’ significa não apenas ‘sagrado’, ‘consagrado’, mas também algo que só podemos traduzir por ‘infame’, ‘detestável’, (e.g. ‘auri sacra fames’)”.

Pg. 145 – “A circuncisão é o substituto simbólico da castração que o pai primevo outrora infringira aos filhos na plenitude de seu poder absoluto, e todo aquele que aceitava esse símbolo demostrava através disso que estava preparado para submeter-se à vontade do pai, mesmo que esta lhe impusesse o mais penoso sacrifício”.

Pg. 158 – “A convicção de sua irresistibilidade, a submissão à sua vontade não poderiam ter sido mais indiscutidas no desamparo e intimidado filho do pai da horda – na verdade, esses sentimentos só se tornaram plenamente inteligíveis quando transpostos para o ambiente primitivo e infantil”. (...) “O enlevo da devoção a Deus foi assim a primeira reação ao retorno do grande pai”.

Pg. 159 – “A elucidação dessa situação de depressão surgiu do judaísmo. Independentemente de todas as aproximações e preparações do mundo circunvizinho, foi afinal de contas no espírito de um judeu, Saulo de Tarso (que, como cidadão romano, chamava-se Paulo), que a compreensão pela primeira vez emergiu: ‘a razão porque somos tão infelizes e que matamos Deus, o pai’”.

Pg. 160 – “O cristianismo, tendo surgido de uma religião paterna tornou-se uma religião filial. Não escapou ao destino de ter de livrar-se do pai”.